Fake news: uma ameaça invisível no mundo virtual

Essa semana, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PE) iniciou uma campanha contra propagandas e fake news durante o período eleitoral. O tribunal terá ao seu lado o Ministério Público Eleitoral (MPE) e Polícia Federal. A instituição alerta que, pelo seu poder destrutivo e por ameaçar a própria democracia, as fake news, atualmente, são a principal preocupação da Justiça Eleitoral em todo o País. Foi criada, em Pernambuco, uma Central de Denúncias para filtrar todas as informações que chegarem à Corte, com o objetivo de dar maior celeridade às ações de combate a possíveis crimes eleitorais. No entanto, apesar dos esforços, o impacto das redes sociais na vida pública do País vai além.

O coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, Fábio Malini, tem estudado o uso de perfis falsos nas redes sociais para impulsionamento de conteúdo. Segundo o estudo, foram identificados milhares de personagens criados com o objetivo de influenciar o processo eleitoral. Esses perfis fakes, também chamados de robôs ou ciborgues, tiveram participação ativa na eleição de 2014 no Brasil, conforme levantamento feito pelo laboratório junto com a BBC Brasil. Os robôs funcionam por meio da interação com usuários das redes sociais e publicação de conteúdos favoráveis aos candidatos vinculados a eles. A tentativa é de criar uma uma tendência eleitoral que favoreça um postulante, fazendo internautas mudarem suas opiniões ou criando uma sensação artificial de maioria.

Políticos influentes na vida nacional, como os senadores Aécio Neves (PSDB) e Renan Calheiros (MDB), foram identificados pela análise como supostos beneficiados por essa prática. Fábio acredita que, em 2018, a influência será menor, já que as próprias redes sociais vêm desenvolvendo formas de bloquear esse tipo de estratégia. A permissão do impulsionamento de posts, aprovada na reforma política no ano passado, já produzirá uma diferença considerável na campanha. 

"Agora, o político passa a poder falar com uma quantidade muito grande de pessoas e vai ter muito material de inteligência nas campanhas", explica. Quando a construção da realidade passa a ser feita numa plataforma virtual, quem detém poder vai tentar usar ferramentas para influenciar as pessoas. Há empresas oferecem serviços nesse sentido, como a Cambridge Analytica, que atuou na eleição de Donald Trump contra Hillary Clinton.

Informações pessoais coletadas de usuários da internet por redes sociais e mecanismos de pesquisa abastecem bancos de dados, que são comercializados e utilizados em campanhas, lidando precisamente com um público-alvo a partir de uma psicologia de massa.

A Cambridge Analytica, inclusive, já foi associada ao prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), que teria contratado seus serviços. Em entrevista ao El País Brasil, o marqueteiro André Torretta - sócio da agência - confirma a relação com o prefeito e sua organização empresarial. Torretta explica que é possível colher centenas de informações de cada indivíduo e customizar campanhas em um alto nível de sofisticação científica. "Eu estou te enganando? Não, estou apenas entregando o que você quer ver", diz Torretta. 

O desembargador corregedor do TRE-PE, Alexandre Pimentel, que está pessoalmente engajado no combate a fake news, sublinha que o uso de big data nas campanhas eleitorais não configura um ato ilícito. "Você deve ter conta no Google, Facebook, WhatsApp. Quando baixamos esses aplicativos, a gente assina termos de condições que nunca lemos e, neles, cedemos o direito de uso das nossas inforamções. Então, a princípio não é ilícito. Não pagamos dinheiro para estar na rede social, mas é uma relação de consumo. Essas empresas ganham dinheiro com as nossas informações", comenta.

Notícias falsas
Fator de influência nas eleições que preocupam cada vez mais os órgãos de controle, as chamadas fake news se escondem muitas vezes em disfarces, com estrutura de notícia com conteúdo manipulado para causar distorção na opinião pública. Canais de informações inviesados, também identificados como produtores de fake news, despertam a preocupação porque produzem conteúdo modificado do seu sentido original e identificado ideologicamente com parte do público, gerando bolhas ideológicas que se propagam entre si com facilidade. 

Fábio Malini explica que "esse ecossistema, dos canais de notícias direcionadas+, tem cerca de 200% de viralidade a mais do que a imprensa profissional". Entre os exemplos presentes no Facebook, estão páginas como "Apoiamos a Operação Lava Jato" (294 mil seguidores) ou "Partido Anti-PT" (1,6 milhão de seguidores), que publicam notícias de um portal.

Com o intuito de barrar a proliferação de conteúdo falso nas redes, o criador da maior rede social em atividade, Mark Zuckerberg, dono do Facebook, demonstrou o poder de influência da rede social, quando decidiu mexer no algoritmo para diminuir o peso que as notícias teriam no seu feed. A decisão decorre de questionamentos sobre a neutralidade do Facebook em relação à opinião pública. Recaía sobre seu sistema a suspeita de intervenção na política americana, a partir da criação de tendências, trend topics, que são os termos mais comentados pelos usuários. 

Especialista em comunicação e tecnologia, Paulo Rebêlo, diretor da Paradox Zero, esclarece: "O modelo de negócios do Facebook é primariamente baseado em publicidade segmentada, que é um recurso que nenhuma outra empresa de internet oferece de modo tão eficiente. Não é jornalismo, não é comunicação. É tecnologia pura. Tudo norteado por algoritmo e sistema", afirma. "Ao pagar, o cliente ganha um certo controle sobre o que fazer com o algoritmo. Um bom profissional ou uma boa empresa vai plantar notícias falsas, ou notícias de meias verdades, facilmente. Porque a ferramenta é feita para isso. O foco não é a notícia, é o conteúdo. A notícia é apenas uma das muitas variáveis que pode ser utilizada via algoritmo nas redes sociais", complementa.

Essa funcionalidade do Facebook, do Twitter e outras redes ficou mais clara devido ao momento polarizado que o mundo vive. Conforme explica o professor e jornalista Carlos Alberto Zanotti (PUC-Campinas), vivemos a era da Pós-Verdade (post-truth). "É um estágio do nosso desenvolvimento em que as instituições caem em descrédito. As pessoas acabam se apropriando de uma verdade pessoal e acabam buscando argumentos para justificar aquilo em que acreditam, independentemente das garantias institucionais. E as instituições são a Justiça, imprensa e a sala de aula", esclarece.

O desnorteamento e a popularização das fake news reforçam a importância da procura de notícias com credibilidade e checadas. "O grande nó é que o algoritmo que regula a tensão não prioriza o direito à informação. As pessoas precisam ter acesso à pluralidade de informações e ter acesso prioritariamente a informações checadas. Só que, ao mesmo tempo, o Facebook está numa sinuca de bico, porque o algoritmo que cria essa dinâmica é o que possibilita vender anúncio. Um jornal da imprensa profissional tem 6 milhões de seguidores, mas o conteúdo publicado chega a 10% disso", pondera Fábio Malini. "Esse é o problema. Dar o direito à informação plena significa reduzir a geração de lucratividade", verifica.

Segundo artigo do doutor em comunicação pela USP, Eduardo Wolf, a mudança nos algoritmos não parece ter surtido efeito, se a intenção era conter as fake news. O especialista cita testes feitos pelo Facebook na Sérvia e Bolívia, em que a propagação de notícias falsas não arrefeceu. Nesse sentido, pelo ineditismo do dilema em que se encontra, a sociedade precisa reforçar sua consciência, com medidas educativas, refletindo no novo tempo que vivemos. Fábio Malini aponta: é a nova dinâmica do mundo. "Nos manifestamos como banco de dados, a tendência é que as nossas manifestações passem a ser processadas e ouvidas para que o político organize suas propostas e discursos. O que precisa ser cuidado é para que a inteligência potencialize a democracia", afirma. (Folha Press)