Real Madrid derrota o Liverpool e conquista seu 13º título de Champions




Pode uma final de Liga dos Campeões ser interpretada como um filme? Há quem entenda algo de pejorativo quando se compara futebol ao cinema, como se esta última fosse uma forma inferior de se viver o esporte. O certo é que Antonio Bordallo, de sorriso amplo e voz serena, não se incomodava em assistir sentado a Real Madrid e Liverpool — na área de cadeirantes, condição advinda da perna direita amputada na altura do joelho —, tampouco em ver a decisão no Estádio Olímpico de Kiev sob a ótica da sétima arte, seu meio de vida.

Aos 38, casado com uma estoniana de 55, o brasileiro é um dos curadores do Festival de Cinema de Tallinn, onde vive há seis anos. “Creio que futebol é como ir ao cinema, porque nunca sabemos o que vai acontecer no final”, argumenta Antonio, que trajava as cores do Liverpool e não queria ver um filme repetido na Ucrânia — estivera em Cardiff no ano passado, quando o Real conquistou seu 12° título europeu. Chegaria ao 13° com uma vitória por 3 a 1 na noite de sábado, num roteiro com falha(s) de Karius, gol improvável de Benzema e Bale em remake de Cristiano Ronaldo. Mas estamos dando spoilers ao leitor. Vamos narrar a história do início.

Se não existe filme que perde seu protagonista na meia hora inicial, então a final da Champions já tomou rumo distinto depois que o egípcio Mohamed Salah, com dores no ombro após uma queda com Sergio Ramos, deixou o campo às lágrimas. Classificado como “um cara babaca” por Anne, a mulher de Antonio, Ramos se credenciou ao papel de vilão: passou a ser vaiado com raiva pela torcida do Liverpool. A carga dramática era evidente: dez minutos depois, Carvajal também deixou o campo aos prantos ao torcer o tornozelo. Quanto à óbvia pergunta sobre a participação de ambos na Copa do Mundo, em menos de um mês, a resposta fica para os próximos capítulos.

A saída de Salah privou o Liverpool de seu dinamismo ofensivo. Lallana, o substituto, não conseguia dar sequência às tramas com Firmino e Mané. Do outro lado, o protagonista do Real era pouco acionado: vigiado de perto por Lovren, Cristiano Ronaldo mal conseguia entrar em cena. O jeito foi apelar aos coadjuvantes. Alexander-Arnold, um dos mais contestados no elenco de Klopp, exigiu boa defesa de Navas aos 22 minutos. O zagueiro Nacho, improvisado na lateral após sair Carvajal, acertou o lado de fora da rede aos 44. Benzema arriscou para fora logo depois. Aquele ainda não era seu ato.

No cinema, diz-se que há uma “plot twist” quando um acontecimento, que pode parecer insignificante à primeira vista, muda o roteiro por completo. Karim Benzema, que vinha acumulando avaliações negativas como jogador, mostrou-se um sucesso de crítica ao acreditar no tal “plot twist”. A bola estava nas mãos de Karius, o placar zerado, o relógio tinha seis minutos de segundo tempo. Ninguém tinha pressa para nada, mas o atacante francês tinha pressão: esticou a perna, bloqueou a reposição do goleiro e encontrou o gol vazio. Como em um filme de vanguarda, o público foi tomado pelo espanto e teve reações polarizadas: os de camisa branca riram em triunfo, os de vermelho fizeram cara de desespero.

Sadio Mané, de Senegal, quis assumir a direção do espetáculo. Empatou o jogo aos dez minutos, completando um cabeceio de Van Dijk após cobrança de escanteio. Teve direito a trilha sonora da torcida do Liverpool, que entoou “You’ll Never Walk Alone” em êxtase. Mais dez minutos e Mané acertou a trave direita de Navas.

Mas não é sempre que seus atores favoritos são premiados. E volta e meia somos obrigados a ver filmes repetidos. Gareth Bale saiu do banco e fez o que ninguém imaginava que fosse capaz, apesar de ter custado os mesmos 100 milhões de euros que Cristiano Ronaldo: reproduziu à risca o talento do craque português. Numa bicicleta semelhante à que Ronaldo usou para fulminar a Juventus nas quartas de final, Bale achou o ângulo de Karius e fez 2 a 1. Não satisfeito, deixou claro aos 38 minutos quem ocupava qual papel na noite: o galês era o herói, ao arriscar mais um chute fatal de longe. O goleiro alemão era o vilão, ao cometer mais um erro incompatível com uma final de Liga dos Campeões. E o Real completou sua trilogia europeia mostrando que, assim como no cinema, as franquias de maior sucesso sempre ganham continuações. (iBahia)
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